Os trabalhadores da antiga Avibras Indústria Aeroespacial voltaram à fábrica na manhã desta segunda-feira (4), em Jacareí (SP). Agora sob o nome de Avibras Aeroco, a empresa reinicia suas operações não apenas diante da expectativa de retomada da produção, mas carregando o significado de uma vitória histórica conquistada pela persistência e organização dos metalúrgicos.
Desde as primeiras horas do dia, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à CSP-Conlutas, esteve na portaria da fábrica para recepcionar os operários em um ato de boas-vindas e reafirmar o compromisso com a defesa dos empregos e dos direitos conquistados.
A cena do retorno ao trabalho simboliza o desfecho de uma batalha que mobilizou trabalhadores, familiares e setores da sociedade em defesa da manutenção da principal indústria bélica do país.
O Sindicato pressionou todas as esferas do governo, de Bolsonaro a Lula, além dos credores e do então proprietário da Avibras, João Brasil Carvalho Leite, pelo pagamento de salários e direitos e pela permanência da empresa no Brasil.
Greve de 1.280 dias
A reabertura da fábrica é resultado direto de uma mobilização iniciada em março de 2022, quando a empresa anunciou a demissão de 420 funcionários sem qualquer negociação com o Sindicato. A reação imediata da entidade conseguiu barrar os desligamentos na Justiça, mas a crise se aprofundou com o pedido de recuperação judicial apresentado ainda naquele mês. Nos meses seguintes, os trabalhadores enfrentaram sucessivos programas de layoff, atrasos salariais e o completo abandono por parte da antiga direção da empresa.
Diante da escalada dos ataques, os metalúrgicos decidiram cruzar os braços em 9 de setembro de 2022. A greve, que durou 1.280 dias, entrou para a história como uma das mais longas do país. Ao longo desse período, o Sindicato organizou mais de 160 atividades entre assembleias, manifestações, reuniões de negociação, ações judiciais e pressão sobre governos, credores e a administração da empresa.
A resistência operária garantiu conquistas decisivas: o cancelamento das demissões, a formulação de um plano alternativo de recuperação judicial e a construção de um acordo para pagamento da dívida trabalhista, estimada em R$ 230 milhões.
Uma luta que batalhou não apenas por salários e direitos, mas também em defesa da soberania nacional.
Foi fruto da pressão dos trabalhadores que foi efetivada a destituição do então proprietário João Brasil Carvalho Leite do comando da empresa, após aprovação do novo plano em Assembleia Geral de Credores, em maio de 2025, bem como iniciativas que denunciaram o risco de venda da Avibras para grupos estrangeiros, o que colocaria em xeque a soberania e a segurança nacional.
Retorno gradual
Durante a manhã, o primeiro grupo de trabalhadores recontratados participaram de uma integração interna, e a expectativa é que a produção seja reiniciada nos próximos dias.
A volta dos trabalhadores será gradual. Durante este mês de maio, cerca de 270 trabalhadores retomam as atividades na Avibras Aeroco. Outros 240 funcionários devem ser recontratados a partir de junho, ampliando o processo de reestruturação da planta industrial.
A defesa da soberania e segurança nacional
Mais do que a reativação de uma fábrica, o retorno da Avibras nesta segunda-feira representa a prova concreta de que a luta e a organização dos trabalhadores são capazes de impedir o desmonte de um setor estratégico e preservar centenas de empregos.
Em um cenário marcado por ataques permanentes aos direitos trabalhistas e pela lógica de abandono da indústria nacional, a retomada da Avibras Aeroco é um símbolo de resistência e mobilização.
“A luta dos metalúrgicos da Avibras é emblemática. Trata-se de uma mobilização que extrapolou a esfera sindical e chegou à sociedade. O Brasil inteiro reconhece a importância estratégica da Avibras para o setor de Defesa. Se a fábrica volta a funcionar hoje, o mérito é todo de quem nunca desistiu”, afirmou Weller Gonçalves, presidente do Sindicato.
Mesmo com a retomada, o Sindicato afirma que seguirá acompanhando cada etapa do processo e mantém a defesa da estatização da empresa sob controle dos trabalhadores, como forma de garantir estabilidade, soberania nacional e proteção definitiva aos empregos.
“A CSP-Conlutas se orgulha de ter sido parte dessa história de luta e seguirá junto aos trabalhadores em suas batalhas”, reafirma o integrante da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas Luiz Carlos Prates, o Mancha.