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A QUESTÃO LGBT E A PARADA DO ORGULHO

À classe trabalhadora LGBT, às suas organizações de base e a todos os explorados e oprimidos:

Vivemos um momento de crise do capitalismo. O sistema que há décadas prometeu inclusão e diversidade agora mostra sua verdadeira face: de um lado, o moralismo fascista avança com projetos de lei que querem nos expulsar das ruas e criminalizar nossa existência; do outro, o pink money oferece a coleira do consumo como se fosse um colar da liberdade. Entre a repressão e a mercantilização, a população LGBT segue sem direitos reais, sem vida digna, sem libertação.

Por isso afirmamos: quem te odeia é o capitalismo. O que te liberta é a luta comunista.

A opressão tem raiz material

A homofobia e a transfobia não são desvios morais de indivíduos preconceituosos, nem fruto de uma “ignorância” que se corrige com palestras de diversidade corporativa. São produtos históricos da propriedade privada e da família monogâmica burguesa.

Com a ascensão da propriedade privada e a divisão da sociedade em classes, a sexualidade foi capturada pelo controle social, e a família monogâmica foi erguida como um pilar para assegurar a transmissão de herança e a subordinação feminina. Sob o jugo do capitalismo, essa estrutura se cristaliza na família nuclear burguesa. Longe de ser um refúgio de afeto, tal instituição opera como uma engrenagem vital para regular a reprodução da força de trabalho conforme os interesses da classe dominante. É nesse núcleo que se disciplina e molda a nova geração de trabalhadores, e é sobre ele que o capital transfere o ônus de suas crises, descarregando no ambiente doméstico os custos da saúde e da sobrevivência. Aqueles que rompem com essa norma – a população LGBT, as famílias dissidentes e as existências que não se encaixam – são prontamente declarados inimigos por uma imperativa necessidade de manutenção do sistema.

Por isso a direita nos ataca em nome da família. O pastor que prega contra nós não inventou o ódio: foi o capital que encomendou.

A história do movimento comunista demonstra que a libertação sexual deve ser conquistada pela luta dos trabalhadores e sua por revolução. Em 1917, a Revolução de Outubro derrubou o czarismo e, com ele, suas leis medievais. O novo Código Penal soviético, já em 1922, descriminalizou a homossexualidade. Pela primeira vez, um Estado tratava as relações entre pessoas do mesmo sexo como assunto privado, não como crime.

Ataque reacionário e cooptação liberal

Hoje, no Brasil, a ofensiva contra a população LGBT se intensifica. O PL do vereador Rubinho Nunes, em São Paulo, quer proibir crianças e adolescentes de participar da Parada do Orgulho. Na Câmara Federal, a deputada Bia Kicis, o pastor Eurico e outros parlamentares de extrema direita articulam projetos que, sob o pretexto de “proteger a infância”, criminalizam a nossa visibilidade e tentam nos varrer do espaço público.

Este retrocesso não é um acaso. É a resposta do capital à sua própria crise. Incapaz de oferecer emprego, moradia, saúde e futuro, a burguesia oferece um bode expiatório: nós. A defesa da família tradicional é a cortina de fumaça que esconde a falência do sistema.

Diante disso, muitos companheiros e companheiras, com sinceridade e urgência, têm apostado no caminho da negociação com as marcas e da pressão institucional para garantir a realização da Parada. É uma resposta compreensível diante do ataque. Mas precisamos olhar com honestidade para os seus limites. Mais do que isso, é forçoso reconhecer que essa aposta se articula, no terreno político, a uma estratégia que não oferece saída real, a defesa de que o centro da nossa luta deve ser apoiar Lula e derrotar a extrema direita nas urnas, justamente a mensagem que o tema oficial deste ano sintetiza, “A rua convoca, as urnas confirmam”. Ocultam, porém, que o governo de frente ampla tem rifado nossos direitos, se omitido diante dos ataques e até atuado como agente direto da ofensiva conservadora, a exemplo do veto ao PAES e da imposição do nome morto no novo RG para pessoas trans. Desmascarar essa conciliação com os setores conservadores é parte incontornável da nossa tarefa: a governabilidade pela qual se sacrificam nossas reivindicações é a mesma que impõe ao movimento o silêncio diante dos ataques vindos do próprio governo.

A estratégia liberal garante a Parada, mas que Parada ela garante? Uma Parada que depende do patrocínio do Itaú e da Ambev para existir.

Uma Parada onde nossa revolta se transforma em consumo e nossa visibilidade vira vitrine. O problema não está na intenção de quem luta, mas na lógica de quem financia. O arco-íris do banco não é nosso aliado: ele está conosco enquanto houver lucro. Não é amor, é pink money. O capital não ama, ele lucra.Em 2024, por exemplo, a maior Parada do mundo perdeu 60% de seus patrocinadores de um ano para o outro, deixando de ser um bom negócio no momento em que o vento político mudou. As marcas não fecharam as portas por convicção; fugiram pelo mesmo motivo que patrocinavam: dinheiro. E a comunidade LGBT ficou com a conta e a incerteza.

Por mais bem-intencionada que seja, uma estratégia que não questiona a raiz material da opressão acaba tratando o sintoma, não a causa. Combate-se o xingamento, mas não a engrenagem que fabrica o xingamento e o xingador. Oferece-se inclusão no mesmo sistema que nos produz como indesejáveis. O limite não é moral, é estrutural: a nossa liberdade não cabe no capitalismo.

Nem proibição , nem privatização

Nós não aceitamos a falsa polarização entre “proibir a Parada” e “manter a Parada como está”. Denunciamos o PL do Rubinho e toda a ofensiva reacionária. Mas também denunciamos o sequestro da nossa luta pelo capital.Mas entendemos que defender a Parada exige também defender o seu conteúdo de classe.

Queremos a rua. Queremos a Parada. Mas não qualquer Parada. Lutamos por uma Parada do povo trabalhador, financiada pelo fundo público, sem patrocínio privado, sem policiamento, organizada pelas entidades de base da classe. Uma Parada que grite “Fora PL” e “Fora banqueiros” no mesmo coro. Uma Parada que não peça licença ao moralismo fascista nem ao lucro corporativo.

A libertação real da população LGBT não virá por leis burguesas que dependem da caneta de um prefeito, nem por comerciais coloridos de banco. Virá com a destruição da propriedade privada, a extinção da família como instituição econômica, a socialização do cuidado e a construção de relações humanas verdadeiramente livres. O comunismo é a condição para essa libertação. A luta organizada é o motor.

A engrenagem tem nome: capitalismo. E é contra ela que devemos nos voltar.

Que este manifesto chegue às mãos da juventude LGBT das periferias, das travestis trabalhadoras, das famílias fora da norma, de todos que sofrem a opressão e buscam uma saída.

Não se trata de romper com quem luta, mas de avançar com quem luta para um terreno mais firme. A aposta liberal mostrou seus limites. Existe outro caminho.  Venham conosco construir a Parada da classe, o orgulho da classe.

Quem te odeia é o capitalismo. O que te liberta é a luta comunista.

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