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Símbolos do descaso com o direito à moradia, atual e ex-prefeito de Cajamar são investigados por corrupção

Nos últimos seis anos os moradores da Ocupação dos Queixadas, em Cajamar (SP), enfrentaram o descaso das administrações públicas que simplesmente dão as costas para o drama das famílias sem-teto.

Apesar do governo estadual ter sinalizado o interesse em regularizar a área e do baixo valor venal do terreno, a Prefeitura tem atuado contra a resolução do problema habitacional. No entanto, este é um tratamento destinado apenas aos pobres da cidade. 

Por outro lado, as gestões do atual prefeito Kauan Berto e de Danilo Joan (ex-prefeito) estão sendo investigadas pela Polícia Civil sob suspeita de desviarem mais de R$875 milhões em contratos fraudulentos que beneficiaram amigos e familiares.

Enquanto a dupla é investigada por desapropriações milionárias sem justificativa plausível, o imóvel onde está a Ocupação dos Queixadas custaria pouco mais de R$190 mil por sua desapropriação.

Apesar disso, ambos os mandatos se negaram a realizar a desapropriação que, nesse caso, teria interesse social, garantindo moradia para quase 100 famílias que há 6 anos buscam uma solução contra o despejo.

Isso deixa claro que a Prefeitura de Cajamar tem um lado e este não é do povo pobre e trabalhador.

Como é o esquema?

As suspeitas recaem sobre dois eixos centrais: desapropriações milionárias sem justificativa plausível e desvios por meio de entidades conveniadas e empresas ligadas a figuras próximas aos prefeitos.

Um dos casos mais contundentes envolve a A2W Tecnologia, empresa de um amigo íntimo de Danilo Joan, que recebeu mais de R$ 33 milhões da prefeitura. A polícia confirmou pagamentos e apontou vínculos diretos entre os empresários e a administração municipal.

Há parentes empregados em cargos comissionados, servidores que migraram da empresa para a secretaria responsável pela contratação e até a possibilidade de lavagem de dinheiro via loja de veículos de luxo dos mesmos donos. 

Empresas de familiares diretos de Danilo Joan teriam recebido mais de R$ 50 milhões em contratos públicos, muitos deles sem licitação ou mediante licitações supostamente combinadas. 

A prática revela, segundo o Ministério Público, um padrão de cruzamento de interesses e captura da administração pública.

Servidores próximos a Joan, amigos de infância e até primos foram nomeados para cargos estratégicos, justamente nos setores encarregados de aprovar pagamentos a essas empresas. 

Embora o ex-prefeito negue favorecimento, as investigações indicam conflito de interesses evidente e uma engrenagem montada para sustentar contratos suspeitos. É o sequestro da máquina pública para enriquecimento próprio.

O núcleo Barueri

Outro bloco de denúncias aponta para a existência de um cartel de empresas sediadas em Barueri, beneficiado com contratos de até R$ 206 milhões com a Prefeitura de Cajamar. 

Algumas dessas empresas têm sócios ligados ao ex-prefeito e teriam participado de desapropriações suspeitas e superfaturamentos.

Leandro Morette Arantes, atual secretário de Segurança de Cajamar e parente — ainda que distante — do ex-prefeito de Barueri, Gil Arantes, político afastado da prefeitura em 2015 após uma série de denúncias de corrupção, é outro nome que aparece nas investigações.

Leandro ganhou protagonismo justamente nas gestões de Danilo Joan e Kauan Berto, o que reforça a necessidade de aprofundamento das investigações, segundo a Polícia Civil.

Em 2024, já sob comando de Kauan Berto, os contratos com as mesmas empresas continuaram, assim como as desapropriações milionárias. O Ministério Público aponta que recursos públicos podem ter sido direcionados a campanhas locais, configurando possível uso eleitoral da máquina municipal.

Cajamar: o contraste entre prosperidade logística e vulnerabilidade social

Enquanto bilhões circulam por contratos suspeitos dentro da prefeitura, a realidade dos trabalhadores é muito diferente. Hoje, a cidade abriga 3 milhões de m² de galpões, tornando-se o maior polo de distribuição do país.

No entanto, a vida dos moradores, especialmente os mais vulneráveis, não reflete a prosperidade de bilionários galpões. Muitas famílias são expulsas para dar lugar ao avanço logístico, enquanto outras sobrevivem em ocupações como a Ocupação dos Queixadas.

Este é a contradição que tem regido a cidade: de um lado, contratos milionários sob suspeita; do outro, moradores com empregos precários e que não conseguem sequer pagar aluguel. 

As suspeitas contra as administrações Joan-Berto mostram que, para além da logística bilionária, Cajamar enfrenta um problema estrutural: um poder público que parece operar a serviço de poucos, e não da população que mais precisa.

A Ocupação dos Queixadas existe porque Cajamar virou uma cidade impossível para quem vive de salário. São os trabalhadores dos galpões, diaristas, motoristas, ambulantes que sustentam essa cidade.

Enquanto querem o despejo das famílias para manter a maquiagem de “cidade-modelo”, as investigações mostram o que está por trás dessa fantasia: corrupção, desmandos e um projeto de poder que serve a empresários e políticos, não à população.

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