A escuridão que cobre a Ocupação Esperança, em Osasco, há mais de 20 dias é mais do que uma falha técnica; é o sintoma mais recente de uma década de luta por moradia e de um profundo descaso do poder público.
Mais de 500 famílias, incluindo crianças, idosos e pacientes que dependem de aparelhos de oxigênio ou refrigeração para medicamentos como insulina, enfrentam esta crise.
Tudo começa com um transformador queimado. A Enel, concessionária de energia, se dispôs a trocar o equipamento — orçado em R$ 70 mil, valor impagável pela comunidade —, mas ainda é necessário que outras medidas sejam tomadas pra resolver o problema.
Assim, a Enel informou que enviará um ofíco à Prefeitura de Osasco para que seja autorizada a ingressar na comunidade e realizar a instalação provisória de energia. As famílias esperam que a autorização venha, e que não sejam criados empecilhos, como a alegação de que o Poder Público não pode entrar, porque a área é particular e está em conflito judicial. Esse argumento é constantemente utilizado quando o movimento reivindica água, luz e outros serviços públicos.
Para os moradores, no entanto, a falta de energia é apenas o capítulo mais recente de um histórico de abandono que contrasta com a realidade econômica da cidade, dona do segundo maior PIB do estado de São Paulo.
Uma década de abandono e auto-organização
A Ocupação Esperança surgiu em 2013, fruto da “necessidade concreta” de famílias trabalhadoras sem acesso ao mercado imobiliário formal. Desde então, a comunidade de 3 mil pessoas resiste e constrói sua própria infraestrutura.
“Tudo aqui foi feito na raça, com vaquinha e esforço coletivo”, relata Maura, uma das lideranças locais, referindo-se às ruas, saneamento básico e às instalações elétricas iniciais.
A omissão do Estado é uma constante. Em 2016, após um incêndio destruir parte do local, a Prefeitura chegou a decretar a área como de “interesse social”, prometendo um projeto de urbanização que nunca saiu do papel.
A comunidade aponta falhas em múltiplas esferas de governo. Recentemente, uma proposta de regularização fundiária, que envolvia a adjudicação do imóvel pela União, ou seja, a tomada do terreno como pagamento de uma dívida que o proprietário possuía de mais de 6 milhões reais, não se concretizou.
Segundo denúncia do Luta Popular, a Secretaria das Periferias do Governo Federal, comandada por Guilherme Simões (ligado ao MTST), não teria assinado a proposta, deixando a dívida “caducar” e o processo de regularização falhar.
Crítica e resistência
A situação gerou críticas de lideranças da ocupação à “institucionalização” de movimentos sociais que passaram a integrar o governo.
Maura argumenta que, ao assumirem cargos, figuras como Simões e Guilherme Boulos, agora ministro do governo Lula, “perdem a independência” e “deixam de lutar de verdade”, virando as costas para as bases.
Enquanto as soluções institucionais falham, os moradores apostam na pressão popular como única ferramenta de diálogo. Recentemente, uma ocupação da Câmara Municipal de Osasco resultou na aprovação unânime de uma moção contra o despejo da comunidade.
Ainda sem respostas concretas e efetivas do poder público para resolver a crise energética e para avançar na demanda histórica por regularização, as famílias da Ocupação Esperança seguem em resistência. “A Esperança segue viva”, afirma Maura, “porque o povo não se entrega”.