Na noite da última quinta-feira (5), o grito por dignidade da última favela da região central de São Paulo ecoou em uma audiência pública marcada por denúncias estarrecedoras.
Organizado por uma coalizão de entidades, o encontro reuniu mais de 100 pessoas para expor e debater o processo sistemático de criminalização e violência que a comunidade do Moinho vem enfrentando.
O evento contou com a presença massiva da comunidade, que trouxe à tona relatos de profundo desamparo frente a promessas não cumpridas e violações brutais perpetradas pelo Estado.
O Cenário de Terror e Violação de Direitos
Moradores descreveram uma realidade de terror constante. Famílias que ainda aguardam o cumprimento do acordo habitacional “chave-a-chave” — firmado entre os governos federal e estadual — vivem hoje em condições degradantes e de risco extremo.
Os relatos apresentados na audiência configuram graves violações aos direitos humanos básicos. Há denúncias de Violência Policial, com operações truculentas, tortura, prisões arbitrárias e assassinatos dentro da comunidade, incluindo tiros disparados nas portas das casas.
Moradores sobrevivem em meio a escombros deixados por demolições — algumas realizadas com pessoas ainda dentro das moradias —, sob o risco constante de incêndios e expostos a pragas como ratos e escorpiões. As famílias permanecem no local não por escolha, mas pela ausência absoluta de alternativas habitacionais e pelo não cumprimento dos acordos do Estado.
O Moinho como “Laboratório” da Especulação Imobiliária
As entidades presentes e os moradores apontam que a violência imposta ao Moinho não é acidental. A favela estaria sendo utilizada como um “laboratório” pelo governo de Tarcísio de Freitas para testar táticas de expulsão e remoção forçada de populações vulneráveis.
O objetivo central, segundo os defensores de direitos humanos presentes, é “limpar” a área para atender aos interesses da especulação imobiliária, que cobiça os terrenos da região central, ignorando o direito constitucional à moradia digna.
A Prisão Política de Alessandra Cunha
O momento de maior comoção da noite foi o lançamento da campanha pela liberdade de Alessandra Cunha (Alê). Fundadora da Associação de Moradores do Moinho, Alê é uma figura histórica na resistência do território, tendo liderado lutas fundamentais por acesso a água, luz e moradia.
Por sua recusa em aceitar que a comunidade fosse jogada nas ruas sem garantias, e por ousar confrontar as esferas estadual e federal, Alessandra tornou-se alvo. Ela foi vítima de uma prisão forjada, sofreu tortura e teve sua trajetória difamada por uma campanha midiática conivente com os interesses imobiliários e estatais.
Presa há mais de seis meses, Alessandra é hoje considerada uma presa política da luta por moradia no Brasil. O governo do Estado é acusado de usar todo o seu aparato para assediar, difamar e punir tanto ela quanto sua família e outros moradores do Moinho que se encontram encarcerados.
A situação no Moinho exige atenção urgente dos órgãos de controle, da sociedade civil e da comunidade internacional. A luta da favela do Moinho não é apenas pela permanência em um território, mas pelo direito à existência digna em uma cidade que insiste em marginalizar seus cidadãos mais vulneráveis.