A Justiça brasileira voltou a falhar com as mulheres. Alessandro Neves Santos Ferreira, 24 anos, confessou ter participado do estupro e assassinato de Sarah Picolotto dos Santos Grego, de 20 anos, mas mesmo assim, deixou a prisão após audiência de custódia. O crime chocante ocorreu em Ubatuba (SP).
Sarah desapareceu em 9 de agosto. Foi morta no dia 10 e enterrada em uma área de mata no bairro Rio Escuro. O próprio acusado levou a polícia até o local. O caso veio à tona na última sexta-feira (15).
Em depoimento, Alessandro afirmou que a jovem foi vítima de estupro coletivo cometido por cinco homens em uma adega, com filmagens do crime. Depois, ele levou Sarah para casa e a enforcou.
A libertação do acusado causou revolta entre familiares, amigos e moradores. O Ministério Público anunciou que recorrerá, mas até lá, o criminoso segue livre.
Justiça que protege homens
O caso é mais um retrato da violência de gênero no Brasil. A vítima é culpabilizada. O feminicídio vira “homicídio”. O acusado, mesmo confessando, é solto. E a decisão, para indignação ainda maior, veio de uma magistrada mulher, que não teve o nome revelado.
A violência contra as mulheres avança, como mostra o Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, recorde desde o início da série histórica.
Os dados também revelam que, em 2023, uma mulher, criança ou pessoa incapaz foi estuprada a cada seis minutos. Foram 83.988 registros, 6,5% a mais que no ano anterior. Em quase todos os casos, os criminosos eram homens.
Também cresceram crimes como importunação sexual (+48,7%), perseguição (+34,5%), violência psicológica (+33,8%), assédio sexual (+28,5%) e violência doméstica (+9,8%).
O caso de Sarah expõe um padrão: mulheres continuam a ser mortas, estupradas e culpabilizadas. Homens seguem impunes, protegidos por uma Justiça machista e seletiva.
Campanha e ato em setembro
O feminicídio de Sarah só mostra o quão é importante a campanha lançada pelo Setorial de Mulheres da CSP-Conlutas: “Emergência Nacional contra os feminicídios e a violência às mulheres”.
Na reunião da Coordenação Nacional, realizada no último final de semana, foi decidido que as organizações filiadas à nossa Central deverão botar peso na construção de atividades, incluindo atos de rua no dia 28 de setembro. A data marca o dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto. A data instituída em 1990 visa proteger a vida das mulheres, garantindo serviços públicos gratuitos e seguros.
Emergência Nacional
A campanha de combate ao feminicídio e à violência machista tem uma ampla lista de demandas consideradas fundamentais para reduzir a violência contra as mulheres brasileiras.
Além de exigir do governo políticas públicas por mais investimentos, a iniciativa também leva a reflexão para dentro das fileiras de luta das organizações da classe trabalhadora.
É preciso levantar a bandeira feminista em todos os espaços de militância, das greves às ocupações, além da construção de comissões de autodefesa e solidariedade.
“Fazemos um chamado a todas as entidades filiadas à CSP-Conlutas — sindicatos, movimentos populares, estudantis e de luta contra as opressões — a assumirem essa campanha como prioridade. Que cada base se organize, debata, denuncie e se levante. Que sejamos milhares de vozes a dizer: não aceitaremos mais nenhuma mulher assassinada”, diz o manifesto.